Triquíase: Quando os Cílios Crescem na Direção Errada

A triquíase é o crescimento de um ou mais cílios em direção ao globo ocular, em vez de para fora, como o normal. O atrito constante com a córnea pode causar desde irritação leve até lesões permanentes, dependendo de quanto tempo o problema fica sem tratamento.
O que é triquíase, na prática
Diferente do entrópio — onde a pálpebra inteira vira para dentro —, na triquíase a posição da pálpebra é normal, mas os folículos individuais dos cílios crescem na direção errada. Pode afetar um único cílio isolado ou múltiplos cílios ao longo da margem palpebral.
Principais causas
- Blefarite crônica: inflamação persistente da margem palpebral que altera a direção de crescimento dos folículos.
- Tracoma: infecção por Chlamydia trachomatis que cicatriza a pálpebra por dentro — causa importante em regiões endêmicas.
- Cicatrizes por trauma, queimadura ou cirurgia prévia: alteram o direcionamento dos folículos ciliares.
- Herpes zoster ocular e síndrome de Stevens-Johnson: podem deixar cicatrizes palpebrais que afetam o crescimento dos cílios.
- Envelhecimento: alterações naturais na margem palpebral também podem redirecionar o crescimento.
Sintomas mais comuns
- Sensação constante de corpo estranho ou areia no olho
- Vermelhidão e lacrimejamento
- Fotofobia (sensibilidade à luz)
- Piscar excessivo e irritação que piora ao piscar
- Visão borrada, em casos com dano corneano mais extenso
Complicações se não tratado
O atrito repetido do cílio contra a córnea pode causar erosões e úlceras corneanas, cicatrizes, infecções e, em casos avançados, astigmatismo irregular ou perda visual permanente por dano à córnea.
Diagnóstico
Feito com lâmpada de fenda, avaliando a direção de crescimento de cada cílio afetado e o grau de dano à superfície ocular (muitas vezes com coloração por fluoresceína). A causa subjacente também é investigada, já que ela muda a estratégia de tratamento — cicatriz por trauma responde diferente de blefarite crônica ativa, por exemplo.
Opções de tratamento — e o que a evidência mostra sobre cada uma
A escolha depende do número de cílios afetados, se o padrão é isolado ou difuso, e da causa de base:
- Epilação mecânica: primeira linha para poucos cílios isolados. Alívio imediato, mas os cílios costumam voltar a crescer em poucas semanas — geralmente na mesma direção errada — exigindo repetição.
- Eletrólise: destrói o folículo com corrente elétrica, cílio por cílio. Indicada para poucos cílios localizados; a literatura registra taxas de sucesso mais modestas nessa técnica isoladamente, o que costuma exigir mais de uma sessão.
- Crioterapia: congela a área com múltiplos folículos afetados. Mais indicada para casos difusos, mas carrega risco de despigmentação da pele ao redor e perda de cílios saudáveis adjacentes.
- Ablação a laser (argônio): taxas de sucesso relatadas na literatura variam bastante — de cerca de metade dos casos após uma sessão a taxas bem mais altas após sessões repetidas.
- Cirurgia: para casos graves, recorrentes ou com cicatriz extensa — ressecção do bordo palpebral, rotação da margem ou enxertos de mucosa, conforme a arquitetura da pálpebra.
Na prática, é comum combinar técnicas: por exemplo, epilação para alívio imediato enquanto se planeja um tratamento definitivo para a causa de base.
Cuidados e recuperação
Após epilação: retorno imediato às atividades; uso de lubrificantes oculares recomendado.
Após procedimentos definitivos: antibiótico/anti-inflamatório tópico conforme prescrição, evitar coçar os olhos e usar óculos de sol nos primeiros dias.
Perguntas frequentes
Arrancar o cílio em casa resolve o problema?
Alivia o sintoma temporariamente, mas o cílio tende a voltar a crescer na mesma direção em poucas semanas — sem tratar a causa, o ciclo se repete. Além disso, arrancar sem instrumento adequado pode machucar a margem palpebral.
Triquíase sempre precisa de cirurgia?
Não. Casos com poucos cílios isolados costumam responder bem a epilação, eletrólise ou crioterapia. A cirurgia fica reservada para casos difusos, recorrentes ou com componente cicatricial importante.
Triquíase pode voltar depois do tratamento?
Sim, é uma característica da condição — mesmo técnicas definitivas como crioterapia e laser têm taxas de recorrência descritas na literatura, o que às vezes exige mais de uma sessão ou retoque.
É perigoso deixar sem tratar?
O atrito constante pode causar erosão e, com o tempo, cicatriz na córnea — por isso o acompanhamento oftalmológico é recomendado mesmo em casos leves.
Quando procurar um especialista
- Sensação persistente de corpo estranho no olho
- Cílios visivelmente voltados para dentro
- Vermelhidão, lacrimejamento ou dor que não melhora
- Qualquer sintoma que piora progressivamente
Sobre a especialista
Este conteúdo foi escrito pela Dra. Marina Conti (CRM-SP 168967, RQE 84764), oftalmologista com Residência em Oftalmologia e Fellowship em Plástica Ocular, Vias Lacrimais e Órbita pela UNIFESP – Escola Paulista de Medicina. Atende em oculoplástica na Clínica La Vue, nos Jardins, São Paulo.
Saiba mais sobre o tratamento de triquíase com a Dra. Marina Conti.
Fontes e leitura adicional
- American Academy of Ophthalmology — EyeWiki: Trichiasis
- Management of Trichiasis/Distichiasis — Clinical Gate (taxas de sucesso comparadas entre técnicas de ablação)
- “The Annoying Lash in the Eye: A Review of Trichiasis” — Review of Ophthalmology


